O novo "college"

Fonte: Folha de São Paulo

07/12/2009 - Dadas a complexidade e a diversidade cultural do mundo contemporâneo, há insatisfação com modelos atuais de educação superior

ESTIVE EM Boston para um seminário na Universidade Harvard sobre meu tema de pesquisa, desigualdades em saúde. Aproveitei a viagem para visitar programas e assinar acordos com universidades da Costa Leste. Em palestras e encontros, discutimos o Reuni e seu impacto na universidade pública brasileira, agora talvez mais aberta à internacionalização. Percebi grande interesse no modelo UFBA Universidade Nova e no regime curricular do bacharelado interdisciplinar (BI), sobretudo por suas perspectivas de compatibilidade com o modelo do "college".

Porém, muito fascinava nossos parceiros o que para eles parecia ser um caso de pioneirismo e sucesso (mitos heroicos parecem atrair os gestores acadêmicos das poderosas universidades americanas).

Contei como a experiência do BI tem extrapolado nossas expectativas mais positivas. Por um lado, permitiu à UFBA implantar um projeto Reuni ambicioso e inovador, com massiva ampliação da graduação, de 4.200 vagas em 2007 para 7.916 em 2009, principalmente cursos noturnos.

Por outro lado, constatamos inesperada aceitação em relação aos novos cursos. A primeira oferta de novas modalidades de graduação (ano passado) teve mais de 5.000 candidatos para 980 vagas. O BI de saúde recebeu 12 candidatos por vaga, e a procura pelo BI de ciências & tecnologias superou quase todas as engenharias.

Neste ano, em processo seletivo recorde em toda a história de nossa instituição, cerca de 14 mil postulantes optaram por 1,4 mil vagas nas novas modalidades de ensino. Entre os 10 cursos mais concorridos, 5 são BIs ou cursos tecnológicos.

O BI de humanidades tem maior concorrência que direito, administração e comunicação. O curso de gestão social é tão procurado quanto o de medicina, com mais de 34 candidatos/vaga, enquanto o BI de saúde, mesmo duplicando a oferta de vagas, é o terceiro curso mais concorrido, com 21 candidatos/vaga.

No aeroporto de Nova York, confiro manchete da "Newsweek": "A reinvenção da educação superior". Quatro reitores e dois pesquisadores em educação discutem o papel do "college", a necessidade de torná-lo mais contemporâneo e, ao mesmo tempo, recuperar sua função pedagógica.

A matéria central da revista é um artigo do senador Lamar Alexander, ex-ministro da Educação dos EUA, defendendo a redução do "college" de quatro para três anos. A favor da proposição, dois argumentos: aumento da eficiência com redução de custos sociais e renovação curricular com universalidade da formação.

A proposta indica insatisfação com modelos atuais de educação superior diante da complexidade e diversidade cultural do mundo contemporâneo. Na tradição intelectual estadunidense, há quase consenso de que a educação superior constitui o mais legítimo meio de ascensão social. Talvez por isso, nossos interlocutores apreciam o fato de que a Universidade Nova tem matriz interdisciplinar, articula-se com programas de ação afirmativa e o BI compreende, ele próprio, instrumento de inclusão social.

Para Sherman Garnett, "dean" do prestigioso James Madison College da Michigan State University, onde assinamos convênio de intercâmbio acadêmico, o modelo do BI pode superar o clássico "college" não só por ser mais econômico mas também por fomentar interdisciplinaridade e resgatar a missão civilizatória na universidade. Só para relembrar, Boaventura de Sousa Santos há tempos fez o mesmo comentário ao comparar o BI com o bacharelado europeu.

Nessas bases, também iniciamos colaboração entre a Steinhardt School of Culture and Human Development da New York University e o novo Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos da UFBA, integrando currículos em programas conjuntos de formação interdisciplinar nas áreas de saúde, artes e humanidades.

Dois séculos de história do sistema universitário anglo-saxão teriam mesmo desgastado o importante elemento de integração social e cultural de povo e nação, estruturante do projeto original da universidade humboldtiana? Será que o novo "college", mais curto e menos especializado, agora apresentado como alternativa ao bachelor de Bolonha, vai ao encontro do bacharelado interdisciplinar? Poderá a "onda brasileira" de desenvolvimento solidário, neste momento tão visível e valorizada no cenário político e econômico mundial, contribuir para a internacionalização da educação superior com modelos criativos de inclusão social com qualidade acadêmica?

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 57, doutor em epidemiologia, pesquisador 1-A do CNPq, é reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0612200909.htm


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